terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

A Galáxia que Habito


(Herton Escobar - Estadão) Imagine se você vivesse confinado dentro de um quarto no interior de um grande castelo, do qual você não pudesse sair. O quarto tem janelas, pelas quais você pode ver algumas partes internas do castelo e vislumbrar alguns outros castelos distantes numa planície. Assim, você tem alguma ideia da estrutura interna do lugar onde vive e pode usar a aparência dos castelos distantes como uma referência visual comparativa. Porém, sem nunca ter saído do seu próprio castelo, como é que você saberia descrever a aparência externa dele? Sua arquitetura exata? Tamanho, número de torres, quartos, habitantes, etc?

Essa é a situação dos astrônomos que estudam a estrutura da Via Láctea, a galáxia na qual está inserida o Sistema Solar (e, consequentemente, a Terra). O castelo é a galáxia. O quarto no qual estamos “aprisionados” é o Sistema Solar. As janelas são os telescópios que usamos para observar o Universo. E os castelos distantes são as outras galáxias que conseguimos enxergar por meio deles.

A Via Láctea, assim como quase todas as outras bilhões e bilhões de galáxias do Universo, é um disco gigantesco de gás e poeira em rotação. Isso sabemos com certeza. Dentro desse disco, porém, o gás e a poeira podem estar organizados em diferentes configurações (“projetos arquitetônicos”). Até algum tempo atrás, acreditava-se que a Via Láctea era uma espiral com quatro “braços”. Mas agora, com base em observações mais refinadas, acredita-se que ela tenha apenas dois braços principais, conectados por uma “barra” de gás super denso e lotado de estrelas no centro da espiral — algo muito semelhante à galáxia NGC 1073, da qual a Agência Espacial Europeia (ESA) divulgou uma nova foto esta semana (acima), feita pelo telescópio espacial Hubble.

É dentro de um negócio desses que você vive … imagine só!

Os astrônomos calculam que a Via Láctea tenha aproximadamente 100 mil anos-luz de diâmetro, o que significa que seria necessário viajar durante 100 mil anos à velocidade da luz para ir de uma ponta a outra. Ou seja, não tem a menor chance de conseguirmos vê-la “de fora” (a espaçonave mais distante da Terra atualmente, a Voyager 1, está viajando há 33 anos e ainda está na zona de influência do Sol).

Como, então, podemos estudar a arquitetura da nossa própria galáxia? Esses estudos são feitos, principalmente, por meio de radiação infravermelha e outras linhas “invisíveis” de luz, que, diferentemente da luz visível (que os nossos olhos enxergam), conseguem atravessar as nuvens de gás e poeira internas da galáxia. E, ao fazer isso, nos dão pistas sobre onde essas nuvens são mais densas ou mais espalhadas, mais quentes ou mais frias, etc. É como se usássemos um óculos de raio X ou algo assim para visualizar o interior do castelo sem sair do nosso quarto. Imagine só!

Um dos telescópios que mais contribuiu para essas pesquisas foi o Spitzer, da Nasa, especialista em observações no infravermelho.

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